Se você cultiva uma horta ou sonha em começar uma, já deve ter percebido que cada fase do cultivo tem sua própria beleza.
Hoje vamos falar sobre um momento especial e pouco comentado: o fim do ciclo das hortaliças, quando a colheita termina e as plantas começam a florescer para produzir sementes.
Pode parecer um período de desordem, mas é justamente aí que mora a mágica da renovação.
Neste post, vamos mostrar como esse processo acontece na prática, compartilhar dicas valiosas para quem deseja colher suas próprias sementes e celebrar a diversidade que brota quando deixamos a natureza seguir seu curso.
A horta em transição
Hoje estamos aqui para mostrar um momento de término, de finalização das nossas principais colheitas na horta.
É um momento em que a horta fica com aparência um pouco de bagunçada, porque a gente não está mais com aquele vigor, com a beleza das plantas que estão jovens ou perto da colheita.
É a fase em que as folhas podem estar mais amareladas, os caules mais lenhosos, e o espaço, que antes era tomado por uma folhagem vibrante, agora parece mais vazio.
Muitos podem ver isso como descuido, mas na verdade é um estágio tão importante quanto qualquer outro.
Mas por outro lado também é um momento que tem muita beleza, porque é aquele momento em que a gente deixa algumas das espécies, que a gente cultiva, florescer para que a gente possa colher a semente.
Então nós vamos mostrar aqui algumas para vocês e vamos também dar uma pequena orientação que é importante para quem deseja colher as próprias sementes das suas hortaliças.
Ao colher nossas próprias sementes, garantimos continuidade, adaptabilidade e economia.
Além disso, é uma forma de preservar variedades que muitas vezes não são encontradas com facilidade no comércio.
Um tour pela horta em florescimento: 12 espécies para se inspirar
Então, vamos mostrar aqui 12 espécies que estão florescendo nesse momento na nossa horta.
1. Brocólis:
Vejam aqui o brócolis.

Está bastante bonita sua floração.
As flores amarelas e miúdas são um verdadeiro banquete para os polinizadores e mostram um lado da hortaliça que muitos não conhecem.
2. Rabanete:
Aqui está o rabanete.

Como nós já mostramos em um outro vídeo, esse é o rabanete Ulisses, aquele rabanete preto.
Essa variedade é bastante rústica e se adapta bem ao nosso clima.
3. Radite:
Aqui nós temos o radite.
E como a gente já mostrou aqui em outro vídeo, é uma planta de uma beleza incrível.
4. Rúcula:
Aqui nós temos a rúcula.
A colheita de algumas sementes, como da rúcula, exige atenção, pois elas amadurecem rapidamente e podem se dispersar com facilidade.
5. Funcho:
Vejam aqui o espetáculo da floração do funcho.

Vejam que a gente tem aqui já muitas sementes desenvolvidas, praticamente quase no momento de colher.
E essas sementes elas podem ser utilizadas da mesma forma que a gente usa a erva doce para chás e inúmeras outras receitas.

Então vocês vejam que pela abundância de flores, de inflorescências, e quanto de sementes a gente irá produzir aqui nesse funcho.
Além de ser uma planta aromática, o funcho tem um valor ornamental muito grande. Suas flores amarelas iluminam a horta e atraem diversos insetos benéficos.
6. Almeirão ‘Spadona’:
Aqui nós temos o Almeirão ‘Spadona’, que é uma planta de incrível beleza quando está florescendo.

Nós já falamos dela aqui em outro vídeo, assim como o radite, ela exibe, uma floração muito abundante e tem uma boa duração e é muito bonita.
O almeirão, além de nutritivo, é uma planta resistente e que se adapta bem a diferentes condições climáticas. Sua floração é um presente para os olhos.
É uma planta que merece espaço na horta, não só pelo sabor característico, mas também pela sua imponência quando floresce.
7. Mizuna:
Aqui nós temos a Mizuna ou Couve Mizuna.

Suas flores muito parecidas com as flores da mostarda.
E vejam que ela também já está com muitas bagas de semente.
A Mizuna é uma excelente opção para quem busca variedade na horta.
Suas folhas são muito saborosas.
8. Alface:
Aqui nós temos a alface, neste caso é a alface ‘Cerbiata’.

A gente já mostrou aqui um pouco dessa variedade em nosso canal. Ela já está florescendo.
E aqui, vocês podem observar que nós já temos uma planta que já terminou praticamente a sua floração, já frutificou e está aqui praticamente no momento de ser colhida para que a gente possa retirar suas sementes antes que o vento as levem, não é?

Ela tem esse mecanismo próprio para dispersão. Ou seja, o vento bate, elas vão voar e se espalhar pelo terreno.
Como a gente quer colher as sementes, a gente precisa fazer isso antes que o vento acabe dispersando todas elas para o meio do terreno.
9. Capiçoba:
Vejam aqui uma inflorescência da capiçoba, que é uma planta alimentícia não convencional (PANC).

Nós trouxemos aqui para cá umas duas mudinhas dela e que a gente apanhou numa lavoura de café e agora ela já está se reproduzindo espontaneamente aqui no nosso quintal.
A capiçoba é uma daquelas surpresas que a natureza nos dá. Uma planta rústica, de fácil cultivo e com alto valor nutricional.
10. Cenoura:
Essa é a inflorescência da cenoura.
Faz tempo que a gente cultiva aqui a mesma cenoura, né? Cenoura que a gente planta todo ano.
E então esse é o momento já mais no final da fase de cultivo em que a gente tem que deixar algumas plantas emitirem suas inflorescências para que a gente possa retirar posteriormente as sementes que a gente vai cultivar no ano seguinte.
A floração da cenoura é delicada e lembra um guarda-chuva de pequenas flores brancas.
É importante deixar algumas raízes no solo para esse processo, mesmo que não sejam colhidas para consumo.
11. Jambu:
Aqui nós temos o jambu.

É uma planta que constantemente vai emitindo suas flores.
Tem um aspecto ornamental muito bonito.
É uma planta que a gente gosta muito e que se a gente não plantar, inclusive ela acaba nascendo quase que de forma espontânea aí no nosso quintal.
Vejam que é uma planta muito bonita, né, para você cultivar no seu jardim. É como se fosse uma planta ornamental, né?
Mas ela é uma planta alimentícia, não convencional (PANC). Não convencional para a gente, né?
Porque lá na região norte ela é muito popular, e é muito saborosa.
O jambu é conhecido por causar uma leve dormência na boca, o que o torna único na culinária brasileira.
Seu uso em pratos típicos como o tacacá e o pato no tucupi mostra como a biodiversidade brasileira é rica e cheia de sabores surpreendentes.
Além disso, é uma planta resistente e de fácil manejo.
12. Mostarda:
E aqui nós temos a incrível e bela floração da mostarda.
Como nós já falamos aqui em outros vídeos, essa é uma planta que a gente nem cultiva aqui mais no nosso quintal.
Ela todo ano nasce, no momento oportuno, as suas sementes começam a germinar. Então a gente deixa que elas se desenvolvam.
A gente colhe folhas que a gente deseja consumir ou dar para a galinha e simplesmente deixamos, que algumas plantas ao final do ciclo atinjam o estágio de florescimento e maturação das sementes.
E ano que vem a gente tem mais mostarda aí à vontade para a gente consumir.
Como vocês podem observar, o florescimento da mostarda é sempre um grande espetáculo, né?
O segredo para colher suas próprias sementes: polinização
Um detalhe muito importante para quem deseja produzir suas sementes é entender que há diferenças entre as espécies no que diz respeito à polinização.
Isso porque algumas espécies são caracterizadas como autógamas e outras são espécies alógamas.
O que que isso quer dizer?
Espécies autógamas (autopolinização)
As espécies autógamas, como é o caso da alface, que nós estamos mostrando aqui, elas têm a característica de de se autopolinizarem, tá?
Ou seja, o pólen de uma flor da planta poliniza o óvulo da mesma flor ou de outra flor da mesma planta.
Se ela se autopoliniza, é suficiente então que você tenha um único pé de alface, por exemplo, e que ele vai se autopolinizar e vai produzir as suas sementes.
Outra questão importante é que essas sementes elas irão reproduzir as características da própria planta, porque elas não receberam material genético de fora, ou pelo menos na maior parte dos casos não receberam material genético de outra planta, sobretudo se você tem uma única planta que está florescendo no mesmo momento, né?
Plantas autógamas, como é o caso da alface nesse exemplo, têm a capacidade de se autopolinizar. Isso significa que basta cultivar um único pé, de preferência aquele mais bonito e vigoroso da sua horta, deixá-lo florescer, e ele sozinho será capaz de produzir sementes viáveis.
Já temos inclusive um vídeo completo sobre como produzir as sementes de alface em casa no nosso canal no Youtube:
Espécies alógamas (polinização cruzada)
Uma planta alógama, como é o caso do brócolis, por exemplo, ela precisa de outras plantas para fazer a sua polinização.
Isso porque a planta apresenta mecanismos que impedem que o pólen de uma flor polinize o óvulo dela mesma ou que venha polinizar o óvulo de uma outra flor da mesma planta.
Resumindo, não tem como o pólen dessa planta polinizar óvulos que sejam produzidos por essa mesma planta.
Consequentemente, se a gente tem aqui um único pé de brócolis, é, muito provavelmente a gente não vai ter nenhuma semente viável dessa planta.
E vocês observam aqui que nós já temos bagas muito bonitas sendo formadas, não é?
Então nós vamos ter aqui, provavelmente, uma abundante colheita de semente de brocólis.
E por que isso? Porque nós estamos deixando várias plantas florescerem, certo?
É preciso entender o tipo de polinização para planejar bem o cultivo.
No caso das alógamas, o ideal é cultivar várias plantas da mesma espécie próximas umas das outras, para garantir a troca de pólen e a formação de sementes viáveis.
Essa é uma característica fundamental.
Então, então nós temos que sempre que a gente vai decidir se a gente vai produzir semente de alguma hortaliça, esse é um detalhe fundamental, tá?
É preciso entender o tipo de polinização para planejar bem o cultivo.
No caso das alógamas, o ideal é cultivar várias plantas da mesma espécie próximas umas das outras, para garantir a troca de pólen e a formação de sementes viáveis.
Não dá para produzir semente de planta que é caracterizada como alógama a partir de uma única planta.
O pólen produzido por essa planta não irá fecundar o óvulo produzido por flores dessa mesma planta.
Consequentemente, se você tem uma única, uma única planta de brócolis na sua horta, ela muito provavelmente não irá produzir nenhuma semente, tá?
Para que haja produção de semente, é preciso que o pólen vai de uma planta a outra, sobretudo com ajuda de insetos, né?
Por isso a importância dos insetos na polinização para que haja fecundação, a polinização cruzada. Já que a autopolinização não é o mecanismo de reprodução dessas espécies.
Insetos como abelhas, borboletas e até moscas são essenciais nesse processo. Criar um ambiente favorável à presença desses polinizadores é uma estratégia inteligente para quem deseja colher sementes de plantas alógamas.
Isso é muito importante observar, porque às vezes você vai ter aí alguma espécie que você deixa florescer e na esperança de obter semente e acaba se decepcionando.
E a razão é simples, é porque com certeza se trata de uma espécie cuja polinização é predominantemente, na sua maior parte, cruzada e você não tem uma variabilidade, você não tem outras plantas para que haja essa fecundação.
Tabela de referência: autógamas x alógamas
Pensando nisso, preparamos uma tabelinha prática para ajudar você a identificar quais plantas comuns nas hortas são predominantemente autógamas ou alógamas.
Com essa referência, fica muito mais fácil planejar a produção de sementes e entender o comportamento de cada espécie.
E a partir dela, você já tem uma orientação bastante interessante, caso queira produzir suas sementes.
| Nome comum | Nome científico | Tipo de Polinização (predominância) |
| Abóbora | Cucurbita maxima | Alógama |
| Abobrinha | Cucurbita pepo | Alógama |
| Acelga | Beta vulgaris var. cicla | Alógama |
| Alface | Lactuca sativa | Autógama |
| Almeirão | Cichorium intybus | Alógama |
| Berinjela | Solanum melongena | Autógama |
| Brócolis | Brassica oleracea | Alógama |
| Capiçoba | Porophyllum ruderale | Alógama |
| Cenoura | Daucus carota | Alógama |
| Cebolinha | Allium fistulosum | Alógama |
| Coentro | Coriandrum sativum | Alógama |
| Couve-flor | Brassica oleracea | Alógama |
| Espinafre | Spinacia oleracea | Alógama |
| Feijão | Phaseolus vulgaris | Autógama |
| Funcho | Foeniculum vulgare | Alógama |
| Jambu | Spilanthes oleracea | Alógama |
| Manjericão | Ocimum basilicum | Alógama |
| Melancia | Citrullus lanatus | Alógama |
| Melão | Cucumis melo | Alógama |
| Mizuna | Brassica rapa var. nipposinica | Alógama |
| Moranga | Cucurbita maxima | Alógama |
| Morango | Fragaria × ananassa | Alógama |
| Mostarda | Brassica rapa | Alógama |
| Pepino | Cucumis sativus | Alógama |
| Pimentão | Capsicum annuum | Autógama |
| Pisum | Pisum sativum | Autógama |
| Quiabo | Abelmoschus esculentus | Autógama |
| Radite | Cichorium intybus | Alógama |
| Rabanete | Raphanus sativus | Alógama |
| Repolho | Brassica oleracea | Alógama |
| Rúcula | Eruca sativa | Alógama |
| Salsa | Petroselinum crispum | Alógama |
| Tomate | Solanum lycopersicum | Autógama |
Uma observação importante:
Algumas hortaliças apresentam predominância de um tipo de polinização, mas não de forma exclusiva.
Isso significa que, embora sejam classificadas como autógamas ou alógamas, podem ocasionalmente se comportar de forma diferente dependendo das condições ambientais e da presença de polinizadores.
Por exemplo, a berinjela é considerada predominantemente autógama, pois suas flores hermafroditas favorecem a autopolinização, mas ela também pode ser polinizada por insetos, o que permite cruzamentos entre plantas.
O mesmo ocorre com o quiabo, que se autopoliniza com facilidade, mas também aceita polinização cruzada quando há atividade de abelhas.
Essas espécies intermediárias exigem atenção especial na produção de sementes, especialmente se o objetivo for preservar características específicas da planta original.
Para maior controle genético, recomenda-se o cultivo isolado ou o uso de barreiras físicas que evitem cruzamentos indesejados.
4 dicas práticas para a colheita e armazenamento
1. O conhecimento sobre polinização deve orientar como você cultiva.
Para plantas autógamas (como alface e pimenta), você pode cultivar uma única variedade e ter sementes puras.
Já para as alógamas (como brócolis, cenoura e abóbora), você precisa de mais plantas florescendo simultaneamente para ter sementes viáveis e vigorosas.
Além disso, se você cultiva duas variedades de uma mesma espécie alógama (ex: dois tipos de abóbora), elas devem estar separadas por uma grande distância ou em épocas diferentes para evitar o cruzamento, garantindo a fidelidade da semente.
2. Seleção das Plantas-Mãe:
Outro ponto crucial é a seleção das plantas-mãe.
Sempre escolha os melhores exemplares para colher sementes: as plantas mais vigorosas, mais saudáveis, mais produtivas e que melhor se adaptaram às suas condições.
Dessa forma, você estará artificialmente selecionando características positivas para as próximas gerações, criando uma variedade cada vez mais adaptada ao seu microclima e ao seu manejo.
3. Paciência e Proteção:
Outro ponto que vale destacar é o tempo necessário para que as sementes amadureçam.
Algumas espécies levam semanas após a floração para que as sementes estejam prontas para colheita.
E como falamos, é importante acompanhar esse processo com paciência e atenção.
Durante esse período, é essencial proteger as plantas caso perceber dias futuros com chuvas intensas e ventos fortes, que podem dispersar as sementes antes da hora.
Uma cobertura leve ou estacas de apoio podem ajudar.
4. Secagem e Armazenamento:
Além disso, o armazenamento correto das sementes é essencial.
Após a colheita, elas devem ser secas à sombra, em local ventilado, e armazenadas em recipientes adequados, longe da umidade e da luz direta.
Isso garante maior longevidade e viabilidade para o próximo plantio.
Temos um vídeo completo explicando como conservar sementes da forma correta. Se você quer garantir qualidade e longevidade no seu cultivo, vale muito a pena conferir.
Ah, mas antes de armazenar, é importante separar as sementes dos resíduos da planta (palhas, cascas, pétalas), pois isso previne o desenvolvimento de mofo durante o armazenamento.
Para sementes de frutos carnosos (como tomate, abóbora ou pepino), é essencial retirar a polpa e lavar as sementes em água corrente antes da secagem.
Em alguns casos, como o tomate, deixar as sementes em fermentação por alguns dias ajuda a remover a película gelatinosa, o que aumenta a taxa de germinação.
E não se esqueça de etiquetar tudo com o nome da variedade e a data da colheita!
Por que vale a pena produzir as próprias sementes?
Não é só economia!
Vale lembrar que cultivar sementes próprias é uma forma de preservar variedades adaptadas ao seu solo, clima e manejo.
Outro benefício é a autonomia. Produzir suas próprias sementes reduz a dependência de insumos externos, especialmente em hortas familiares e comunitárias.
E não podemos esquecer do aspecto educativo.
Acompanhar o ciclo completo das plantas, do plantio à colheita das sementes, é uma experiência rica para crianças e adultos. Ensina sobre biologia, paciência, cuidado e respeito pela natureza.
Esperamos que esse conteúdo tenha ajudado você a entender melhor esse momento tão especial da horta.
Se você gostou, compartilhe com quem também cultiva ou deseja começar.
E se tiver dúvidas ou quiser mostrar como está sua horta, comenta aqui embaixo! Vamos adorar ver e trocar experiências. Beleza?
Por hoje é só! Até mais, pessoal.
